Essa foi minha terceira participação no Talent Connect, o evento global do LinkedIn que reúne líderes de People, tecnologia e negócios. Estive em Los Angeles em 2022, em Phoenix em 2024 e agora em San Diego. O tema deste ano, Turning Vision into Reality, sintetiza bem o momento atual do mundo do trabalho: depois de tanto falarmos sobre o futuro, parece que chegou a hora de aprender a colocá-lo em prática.
O Talent Connect é, de certa forma, um espelho do que o próprio LinkedIn está priorizando e de como a comunidade global de RH enxerga suas maiores dores. Já foi um evento mais conceitual, cheio de grandes ideias sobre o amanhã. Hoje o foco parece ter mudado para algo mais tangível. É menos sobre a próxima grande tendência e mais sobre como transformar, de fato, a maneira como lideramos, contratamos e desenvolvemos pessoas.
Além de reunir reflexões e debates sobre o futuro do trabalho, o evento também serve como palco para o LinkedIn apresentar suas novas soluções. Foi o caso do Career Hub, que evoluiu significativamente desde o ano passado e agora permite que os profissionais explorem novas possibilidades de carreira dentro e fora de suas empresas, combinando dados de habilidades, vagas e aprendizado. E do Hiring Assistant, um agente de inteligência artificial criado para apoiar recrutadores em todo o processo de contratação.
O Hiring Assistant automatiza e auxilia tarefas de recrutamento, como criar descrições de vagas a partir de notas, buscar e triar candidatos e enviar mensagens personalizadas. Ele aprende com as interações do recrutador para refinar suas sugestões e tornar o processo de contratação mais eficiente.
Funciona assim: transforma ideias e notas em descrições de vagas otimizadas, analisa milhares de perfis rapidamente com base em critérios definidos pelo recrutador, envia mensagens personalizadas para engajar os candidatos e melhora continuamente com o uso. O resultado é um processo mais automatizado, ágil e acessível, que libera o tempo dos profissionais de recrutamento para se concentrarem no que realmente importa: entender as pessoas e tomar decisões mais estratégicas.
Esses lançamentos mostram que o LinkedIn está avançando de forma consistente na integração entre IA e gestão de talentos, tornando suas plataformas mais inteligentes e personalizadas. Mas também evidenciam um desafio importante: a adaptação dessas ferramentas à realidade de mercados fora do eixo Estados Unidos–Europa.
Dois pontos chamam atenção. O primeiro é o preço. Para o Brasil, o custo de ferramentas como o Career Hub e o Hiring Assistant ainda está muito acima da média do que empresas pequenas e médias podem investir. E esse é um ponto que o LinkedIn precisará repensar se quiser ampliar sua base de clientes corporativos em um país que tem um dos maiores níveis de engajamento da plataforma no mundo.
Hoje o Brasil ocupa a terceira posição no ranking global de usuários do LinkedIn, atrás apenas dos Estados Unidos e da Índia, com mais de 83 milhões de usuários, podendo chegar a 89 milhões em levantamentos mais recentes. Além disso, o país é considerado o segundo mais relevante em engajamento, o que evidencia a importância estratégica do mercado brasileiro para a plataforma.
O segundo ponto é o idioma. Ainda não há suporte completo em português para várias das novas funcionalidades apresentadas, o que torna o uso das ferramentas mais difícil, especialmente para empresas que atuam exclusivamente no Brasil. Em um mercado em que muitos processos de recrutamento e desenvolvimento ainda são conduzidos em português, isso é um limitador real.
Se o LinkedIn deseja fortalecer sua presença e relevância local, adaptar suas soluções à língua e ao contexto brasileiro é um passo essencial. Seria uma forma de reconhecer o tamanho e o potencial do público que mais acredita e utiliza a plataforma.
Essas reflexões mostram como o cenário global e o contexto local se conectam. As grandes discussões sobre o futuro do trabalho só fazem sentido quando conseguimos trazê-las para a nossa realidade. E talvez esse seja o maior mérito do Talent Connect: provocar esse tipo de questionamento.
Ao olhar para trás, é interessante perceber a evolução da narrativa do evento ao longo dos anos.
Em 2022, em Los Angeles, o mundo ainda saía da pandemia e as empresas estavam tentando se reencontrar. O tom principal foi centrado nas pessoas e na reconstrução das relações de trabalho. Falava-se muito sobre skills-first, sobre a transição de um mercado baseado em cargos para um mercado baseado em habilidades, e sobre o papel do RH na mobilidade interna e no bem-estar dos colaboradores. Havia uma busca genuína por reconectar cultura, propósito e pertencimento após um período de ruptura global. A mensagem central era clara: reconstruir começando pelas pessoas.
Em 2024, em Phoenix, o foco estava na era da inteligência artificial, com uma abordagem de inovação e adaptabilidade. A discussão principal girou em torno de como a IA generativa estava transformando o recrutamento e o desenvolvimento, ajudando os profissionais de RH a se concentrarem em tarefas de maior valor humano. O skills-first approach se manteve forte, agora apoiado por ferramentas de mapeamento e aprendizado baseadas em IA. Também se falou muito sobre liderança adaptativa, inclusão e a necessidade de criar culturas de crescimento contínuo. Era um evento otimista, voltado à transformação tecnológica sem perder o olhar para as pessoas.
Chegamos então a 2025, em San Diego, com um clima mais maduro e pragmático. As conversas se voltaram para a execução. Não basta mais falar de futuro do trabalho ou de IA no recrutamento: é hora de entender o que funciona de fato e o que gera impacto real dentro das empresas. O tom é de consolidação, não de euforia. A visão se transformou em prática.
Um ponto, porém, chamou atenção nesta edição. A presença dos principais executivos e líderes de produto do LinkedIn foi mais discreta do que em anos anteriores. Ryan Roslansky, Chief Executive Officer (CEO), LinkedIn, sempre muito presente nas aberturas e painéis das edições passadas, não participou de nenhuma apresentação este ano. Sua ausência foi notada entre os participantes, especialmente por quem acompanha o evento há mais tempo.
Outro nome importante que não subiu aos palcos foi Hari Srinivasan, Vice President of Product, LinkedIn, responsável pelas áreas de Talent Solutions e Learning. Ele é uma das vozes mais técnicas e estratégicas da empresa, com forte atuação na integração entre IA, aprendizagem e experiência do talento. Este ano, segundo relatos, participou apenas de encontros executivos com grandes clientes, mas não apareceu em sessões abertas do evento.
Quem assumiu o protagonismo nas falas institucionais foi Daniel Shapiro, Chief Operating Officer (COO), LinkedIn, que esteve presente em várias apresentações relevantes e representou bem a visão estratégica da marca. Sua presença trouxe consistência e clareza à mensagem central do evento.
Um dos momentos mais comentados da programação foi o bate-papo entre Demi Moore e Jessica Jensen, Chief Marketing & Strategy Officer, LinkedIn. Sob o título “In Her Power”, a atriz refletiu sobre sua jornada de perseverança, autenticidade e sobre o processo de se reencontrar depois de anos sob os holofotes. Foi uma conversa honesta e pessoal, centrada em autovalorização e força interior.
Embora tenha sido inspiradora e conduzida com sensibilidade, a conversa destoou um pouco do foco mais técnico e prático do evento. Em meio a discussões sobre IA, dados e transformação organizacional, a presença de uma figura de Hollywood trouxe um tom emocional que nem todos conseguiram conectar ao tema central de Turning Vision into Reality.
Entre as apresentações que mais me marcaram, Lars Schmidt, Founder da Amplify e autor do livro Redefining HR, trouxe uma fala muito alinhada aos desafios atuais das lideranças. Reconhecido globalmente por seu trabalho na modernização das práticas de RH e na promoção de culturas organizacionais mais humanas e adaptáveis, Lars destacou a importância da confiança em tempos de incerteza.
Ele lembrou que, diante de tanta volatilidade, o papel dos líderes não é oferecer todas as respostas, mas garantir que as pessoas se sintam seguras o suficiente para continuar acreditando na direção da empresa. Foi uma das falas mais relevantes do evento por conectar liderança, cultura e realidade com clareza e profundidade.
Susan David, psicóloga e professora da Universidade Harvard, reforçou a importância da coragem emocional e do desconforto como parte do processo de mudança. E Karin Kimbrough, Chief Economist, LinkedIn, trouxe uma visão equilibrada sobre o impacto da IA, mostrando que a tecnologia não está substituindo empregos, mas redesenhando as funções e exigindo uma nova mentalidade de aprendizado.
Como alguém que já acompanhou o Talent Connect em três cidades e momentos muito distintos da economia global, percebo que o evento reflete as transformações do próprio mercado. Em 2022, o foco era reconstrução e humanidade. Em 2024, inovação e adaptação. Em 2025, consistência e execução. A jornada faz sentido.
Voltei de San Diego com uma sensação diferente. Não de encantamento, mas de foco. O Talent Connect continua relevante não tanto pelo brilho das novidades, mas por mostrar o tom das conversas que ainda vão moldar o mercado nos próximos anos. As tendências não estão mais no palco, estão nas conexões, nas trocas entre profissionais que estão tentando resolver os mesmos desafios em contextos diferentes.
Transformar visão em realidade é o desafio de todos nós que lideramos pessoas e negócios. É sobre escolher consistência em vez de modismo, sobre sustentar o novo quando ele deixa de ser novidade e, principalmente, sobre aprender continuamente. Porque, no fim, a verdadeira inovação acontece quando as ideias saem das apresentações e passam a fazer parte do dia a dia das pessoas.







